"THE IDEA OF JUSTICE" - AMARTYA SEN
Li The Idea of justice, de Amartya Sen.
O livro é do economista indiano, ganhador do prêmio Nobel, que, vez por outra, transita pela filosofia política. Uma leitura realmente proveitosa, que há tempo não tinha.
Pena que Amartya Sen
não tenha conseguido resolver, por completo, o intrincado tema da justiça. Sua
contribuição consiste mais em apontar os enormes desacertos e descaminhos do
enfoque atual. Desde que John Rawls formulou sua teoria da “justiça como
equilíbrio” (justice as fairness), a reflexão filosófica sobre o tema
tem sido um diálogo com a concepção rawlsiana.
(Na minha opinião,
debater Rawls é uma grande perda de tempo e energia: a teoria da justiça como
equilíbrio ressuscita a noção do “contrato social”, no contexto de um exercício
mental, que, de tão abstrato, resulta inteiramente improfícuo. Deve-se, é
claro, tributar a Rawls a importância de ter retomado a questão como tema da
filosofia política, bem como a demonstração de que não se pode abordá-lo senão
mediante absoluta abstração da própria “posição” na sociedade. Isto é tudo,
porém).
Amartya Sen começa
por distinguir, entre os iluministas, duas diferentes posturas diante da
questão. De um lado, a que denomina por institucionalismo
transcendental, em que é discutido como seria um mundo inteiramente justo e
os meios de o construir (Thomas Hobbes, Jean‑Jacques Rousseau, Immanuel Kant);
de outro, a postura do que chama por abordagens comparativas, em que o
foco se volta à identificação e eliminação de injustiças, para ampliar a
justiça (Adam Smith, Stuart Mill, Karl Marx).
Rawls é nitidamente
um herdeiro das teorias transcendentais, enquanto Amartya Sen se insere na
linha das abordagens comparativas. Lembra que os abolicionistas não viam o fim
da escravidão como o surgimento duma sociedade plenamente justa;
mesmo assim, lutaram pela libertação dos cativos, por ser mais justa uma
sociedade sem escravos.
Amartya Sen, assim,
assumidamente não pretende discutir ideais de justiça. Não vê
sentido em perscrutar e formular princípios gerais ordenadores de uma sociedade
completamente justa. Antes, debruça-se sobre as injustiças reais e indaga como
seria possível atenuá-las ou eliminá-las.
Neste contexto, ganha
relevância a proposição que lhe rendeu o reconhecimento do prêmio Nobel – o
comportamento racional não se reduz à busca da satisfação de interesses
egoístas, como a economia costumava (ou ainda costuma) pressupor, mas também há
racionalidade no altruísmo. Quem tem poder para ampliar a justiça tem também a
responsabilidade de ampliá-la; não por se beneficiar da cooperação, que
pressupõe simetrias (no caso, inexistentes), mas exatamente em razão da
assimetria de sua posição.
Ilustro a noção
amartyana: imagine que, ao chegar sua conta no restaurante, você nota ter o
garçom feito uma inadvertida troca, trazendo-lhe a de mesa vizinha, em valor
superior ao de seu consumo; o outro cliente, no entanto, após pagar, também
inadvertidamente, a conta de menor valor, já se retirou do restaurante; deste
modo, a menos que você pague a conta superior ao seu consumo, o garçom terá
descontado, do salário dele, a diferença. Pois bem, se este desconto
representará sério prejuízo ao trabalhador, mas você não teria a mínima
dificuldade em arcar com a diferença – em oportunidades anteriores, gastou tanto
ou mais naquele restaurante –, a assimetria das posições lhe traria a responsabilidade de
pagar a conta de valor maior, mesmo não tendo o dever jurídico de fazê-lo.
A meu ver, a
dificuldade está não em convencer uma ou outra pessoa, em situações como esta da
troca de contas, a sentir-se responsável em função da assimetria que as
beneficia; reside, isto sim, em como sensibilizar, por exemplo, os
congressistas corruptos desta responsabilidade. Enquanto remanescer aberta tal
questão, a formulação amartyana não terá resolvido inteiramente a questão da
justiça.
De qualquer forma,
duas importantes afirmações resultam da nova abordagem comparativa: (i) os
múltiplos fundamentos de soluções justas são irredutíveis a um ou alguns
princípios gerais; (ii) a ampliação da justiça há de ser um movimento global.
A primeira afirmação
é ilustrada, por Amartya Sen, pelo dilema da flauta, em que o
instrumento musical é disputado por três crianças: uma fundamenta sua
reivindicação no fato de ter sido ela quem fabricou a flauta; outra, no de ser
exímia flautista; a última no de ser pobre e não ter nada com que se entreter.
Cada motivo, isoladamente considerado, seria suficiente para dar-se à flauta um
destino justo. Frente a dilemas como este, ele recomenda procurar, em discussão
democrática, pontos de convergência entre os múltiplos fundamentos, como forma
de, pouco a pouco, encontrar-se a solução justa. Desta discussão, contudo, não
resultará algo assim como um princípio norteador de futuras soluções justas.
AMARTYA SEN - 2
Quanto ao alcance
global da ampliação da justiça, Amartya Sen relembra a eloquente formulação de
Martin Luther King, Jr.: injustice anywhere is a threat to justice
everywhere. A interdependência dos interesses e a insuficiência das visões
de mundo paroquiais (parochial reasoning), na compreensão do contexto
globalizado, forçam a busca da ampliação da justiça em escala que ultrapassa
limites locais, regionais ou nacionais. Exemplos (meus): ninguém, no mundo,
pode ficar indiferente à prisão de dissidentes cubanos por crime de opinião – o
que acontece com eles afeta os democratas de todo o planeta, mesmo os que vivem
em países de plena e consolidada democracia; também a profunda desigualdade de
tratamento das mulheres, em alguns países em que predomina a religião islâmica,
diz respeito a todos, inclusive os homens, a despeito de lá não viverem.
Outro ponto de grande
interesse neste livro muito interessante é a notícia do levantamento empírico
feito pelo precocemente falecido economista da Universidade de Cambridge,
Wiebke Kuklys, segundo o qual a linha de pobreza alcança 47,4% das famílias,
quando se leva em consideração o critério do conversion handicap,
isto é, a dificuldade de “converter” renda e recursos em qualidade de vida.
Este levantamento ilustra a assertiva de Amartya Sen da insuficiência de
programas de aumento de renda e distribuição de riquezas na luta contra a
pobreza e edificação de sociedades mais justas.
Os cultores da
filosofia do direito, tão logo possam, devem se entregar à gratificante leitura
deste livro. Publicado no ano passado, certamente não poderá ser ignorado em
qualquer reflexão que se faça, a partir de então, sobre o difícil tema da justiça.
Autor: Fábio Ulhoa Coelho
