O ANO DA (DES) GRAÇA DE 2022: INFLAÇÃO DE ALIMENTOS.
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O Brasil tem 33,1 milhões de pessoas que passam fome |
Eleitores de baixa renda continuam com dificuldade para colocar comida na mesa, e isso ajuda a entender por que Bolsonaro vai mal nesse grupo de eleitores
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| Inflação de alimentos — Foto: IBGE (reprodução) |
Deflação concentrada
No ano, inflação de alimentos sobe mais do que o dobro da inflação oficial
A deflação do IPCA registrada nos meses
de julho (-0,68%) e agosto (-0,36%) foi concentrada em itens como combustíveis
e energia, que receberam subsídios. É por isso que no acumulado do ano produtos
como gasolina (-19,3%), etanol (-22,26) e energia elétrica residencial
(-20,48%) registram quedas expressivas.
Mas esses são itens mais consumidos pelas classes mais favorecidas financeiramente. Para o eleitor de baixa renda, o que mais importa é a inflação de alimentos, produtos essenciais na cesta de compras dessas famílias. E nesse grupo de produtos os subsídios não tiveram impacto.
Café da manhã indigesto
O café da manhã é a refeição em que o brasileiro mais tem sentido a alta dos preços. O leite longa vida sobe 74,68% de janeiro a agosto, a manteiga, 21,07%, o pão francês, 16,64%, e o café moído, 14,67%. O queijo, por sua vez, dispara 19,2%, enquanto o presunto tem alta de 5,9%, e a mortadela, 6,92%.
No
almoço e no jantar, há um certo refresco em alguns produtos importantes: o
arroz tem alta de apenas 1,27% no acumulado do ano, enquanto o feijão preto cai
6,77%. Nas carnes, o aumento médio é de 2,01%. Já a farinha de mandioca dispara
15,62%, a batata inglesa sobe 16,81%, e a alface aumenta 22,97%. O ovo de
galinha também sobe bastante: 13,9%.
A
deflação é concentrada em poucos itens, e isso fica claro no índice de difusão,
que mede o percentual de produtos que ficaram mais caros. Esse índice voltou a
acelerar em agosto, de 63% para 65%. Ou seja, de cada 100 produtos analisados
pelo IBGE, 65 subiram de preço.
A
campanha do presidente irá usar o dado geral do IPCA, que mostrou deflação por
dois meses seguidos, para reforçar a narrativa de que a economia está indo bem
neste ano de 2022. Mas, na boca do caixa, os eleitores de baixa renda continuam
sofrendo para colocar comida na mesa. E é daí que se traduz a dificuldade de
Bolsonaro conseguir virar a corrida eleitoral sobre Lula.
Por
Alvaro Gribel
09/09/2022 19h01 - O Globo
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"Ganho só o
dinheiro dos bicos que faço. Sou servente de pedreiro, carrego mudança, lavo
carro. É o que tem." Assim é a rotina de Josenildo Pereira, 48, após
perder o emprego numa padaria, em 2017, no Recife.
Sem trabalho fixo,
ele faz o que é possível para pagar as contas e levar comida para casa, onde
mora com a esposa e dois filhos. "Vivo num perrengue, sem saber o que
tenho amanhã", diz ele.
O desemprego é um desafio do Brasil e, em especial, nos últimos anos, de Pernambuco, que em 2021 teve o maior índice de desocupação do país —19,3% da população com idade para trabalhar, ou 831 mil pessoas. Em 2022, a cifra recuou para 13,6%, e hoje o estado ocupa a segunda posição nesse ranking.
Outro indicador que reflete o cenário de incerteza é o dos informais, parcela que trabalha, por exemplo, no setor privado sem carteira de trabalho assinada ou por conta própria sem registro de CNPJ.
Segundo dados de
agosto do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 52,9% da
população ocupada em Pernambuco está na informalidade, o equivalente a 1,9 milhão de pessoas.
Com o estado entre
os mais afetados, o problema tem sido abordado com frequência pelos postulantes
a governador. Numa ciranda de acusações, oposicionistas como Miguel Coelho
(União Brasil), Raquel Lyra (PSDB) e o bolsonarista Anderson Ferreira (PL)
centram suas críticas em quem está no poder, ou seja, Paulo Câmara, do PSB,
partido que tem Danilo Cabral como candidato e que culpa Jair Bolsonaro (PL) pela crise.
Para o economista
Edgard Leonardo, a saída para combater o desemprego está na redução da
burocracia e na atração de novas empresas. A chegada de um novo grupo
empresarial para comandar o Cais Sul do Estaleiro Atlântico Sul, no litoral
pernambucano, após a demissão de 3.400 trabalhadores devido à redução das
atividades quase a zero, é uma das apostas para a retomada econômica na área.
"É preciso
interiorizar o desenvolvimento, com estradas qualificadas e ferrovias para
gerar emprego e renda ao longo de todo o estado. É preciso, também, criar
condições para o trabalhador não especializado, na construção civil e no
agronegócio", afirma o professor do Centro Universitário Tiradentes
(Unit-PE).
Além dos problemas
locais, destaca o economista, fatores históricos, como a desigualdade social
acentuada no Nordeste, contribuem para o agravamento do desemprego na região.
O cenário não é
diferente na Bahia, que no primeiro trimestre deste ano registrou, segundo o IBGE, taxa de
desemprego de 15,5% entre a população economicamente ativa, tornando-se a
detentora do maior índice de desocupação do país. O estado também tem uma das
maiores taxas de desalentados, com 612 mil pessoas que poderiam trabalhar, mas desistiram
de procurar emprego frente às dificuldades no mercado.
Na política estadual, o tema é tratado num jogo de empurra. De um lado, ACM Neto (União Brasil) e João Roma (PL), candidatos da oposição a governador, apontam o governo Rui Costa (PT) como responsável pela falta de novos empreendimentos que gerem postos de trabalho. Já o candidato petista Jerônimo Rodrigues (PT) acusa a gestão federal de Bolsonaro pela queda na atividade econômica do país e mira até a administração municipal de Salvador, cuja taxa de desemprego chega a 19% na região metropolitana.
Brasileiros ficaram sem trabalho com a paralisação de atividades após o início da pandemia.
Um dos principais
baques no entorno da capital foi o fechamento da fábrica da Ford em Camaçari,
que resultou na perda de cerca de 4.600 empregos. A unidade da montadora teve
as atividades encerradas em janeiro de 2021, quando também foram fechadas
fábricas em Taubaté (SP) e Horizonte (CE).
Seis anos
antes, o fechamento do estaleiro de São Roque do Paraguaçu, em Maragogipe
(140 km de Salvador), fez o recôncavo baiano ir do céu ao inferno com a perda
de 6.500 empregos. Os governos da Bahia e federal prometem novos negócios para
o local da fábrica da Ford e para a região do estaleiro.
Enquanto novos
postos não aparecem, avança a cifra de informais. Na Bahia, cerca de 53% dos
ocupados trabalham por conta própria ou sem carteira assinada, como André
Rosendo, 17, que quebra pedras com o pai para fazer paralelepípedos na zona
rural de Coronel João Sá, no norte do estado.
No último ano do ensino médio, ele tinha planos de cursar uma faculdade de medicina e ter um emprego formal. Seus planos imediatos são mais modestos e miram o futebol como alternativa: ele quer se firmar como lateral-direito do time sub-20 do Frei Sergipano para tentar chegar à equipe profissional.
Em contraponto ao cenário que assola diversos estados, Santa Catarina se tornou um oásis de emprego.
Em 2018, enquanto o
Brasil apresentava taxa de desocupação de 12,5%, o estado tinha 7,4% de sua
força de trabalho desempregada. Os catarinenses também ganhavam 10% a mais que
a média nacional —na faixa que leva em conta rendimentos menores, a média local
chegava a ser 30% maior que a brasileira.
Santa Catarina
fechou 2021 com taxa de desemprego em 6,4%, frente a 13,8% em todo o país.
Destaca-se, ainda, o índice de formalização: 79,4% das vagas no estado têm
carteira assinada, ante 61,2% no Brasil.
"A diferença é
o equilíbrio entre especializações regionais produtivas, permitindo uma oferta
de empregos maior", diz Paulo Bittencourt, economista-chefe da Fiesc
(Federação das Indústrias do Estado de SC).
A diversificação,
que torna cidades como Chapecó, Criciúma, Blumenau, Jaraguá do Sul e Joinville
polos industriais independentes, serviu para proteger a cadeia produtiva
estadual de impactos mais fortes provocados pela Covid.
Florianópolis é um
bom exemplo: com os setores de turismo e serviços em baixa, a cidade se salvou
por ter feito, nos últimos anos, esforços para atrair empresas de inovação e
tecnologia.
A partir do segundo
trimestre de 2021, a expansão industrial, na esteira da reabertura econômica, deu
esperança a trabalhadores como Fabeline Almeida, 26, e Edivaldo Pereira, 31,
naturais de Rio Branco (AC).
Incentivado por um
dos irmãos de Pereira, o casal pegou os três filhos, entre os quais um bebê de
seis meses, e migrou para o Sul em agosto do ano passado. Um ano depois, ambos
estão empregados na Huvispan Têxtil, empresa de Blumenau especializada em fios.
"Ele [Pereira]
quebrava castanha, eu vendia refresco. Vendemos o que tínhamos, uma moto e um
milheiro de tijolos, para vir até aqui. Pedi doações no caminho para pagar o
mingau da menina", conta Fabeline.
Hoje, ela atua no
setor de limpeza da Huvispan, seu primeiro emprego com carteira assinada. O
marido faz o turno da madrugada como operador de maquinário e toma conta dos
filhos enquanto a esposa está no expediente.
A área têxtil, que
empregou o casal de acreanos, foi a que mais abriu vagas em Santa Catarina no
semestre passado no setor industrial: 7.312 postos, de acordo com a Fiesc.
Dados do Ministério
do Trabalho e, de novo, da Fiesc mostram que o estado ofereceu 84,3 mil vagas
formais no primeiro semestre de 2022. Quase metade delas (43,3 mil) está no setor
de serviços, ainda em franca recuperação pós-pandemia. A construção civil,
impulsionada pela expansão imobiliária no litoral norte do estado, teve 13,4
mil novos postos. Já a indústria abriu 23,9 mil vagas.
Para Lauro Maffei,
professor do Núcleo de Estudos de Economia Catarinense da UFSC (Universidade
Federal de Santa Catarina), a industrialização explica em parte a alta oferta
de vagas formais no estado, mas ele observa que a remuneração desses
trabalhadores não cresceu na mesma proporção.
"As indústrias
e o comércio se organizaram em Santa Catarina de forma a haver pouco espaço
para o trabalho informal. Se por um lado o trabalhador está amparado
socialmente, por outro há um achatamento da remuneração. Há formas e formas de
precarização de trabalho", afirma Maffei.
De acordo com o
Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), Santa Catarina acumulou
143.150 novos postos formais de trabalho entre junho de 2021 e junho de 2022,
mas 88% deles ficam abaixo de dois salários mínimos. Número bem próximo à média
nacional, de 90%.
Em junho, por
exemplo, Santa Catarina abriu 11.638 postos de trabalho formais com remuneração
de até dois salários mínimos. Em compensação, apresentou déficit de oferta de
vagas em todas as faixas acima desse patamar, fechando 1.962 postos de trabalho
que pagavam acima de dois salários mínimos.

