ECONOMIA COMPARADA - RANKINGS (IV)
Economia Comparada, Epidemia dos Rankings – IV, por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
O IDH considera a expectativa de vida ao nascer, educação e renda em paridade do poder de compra, mas não leva a desigualdade em consideração
Todos os dias ouvimos os jornais dizerem que o Brasil está mal colocado em algum ranking obscuro. Os jornalistas, no entanto, não criticam os dados, apenas os aceitam como dogmas religiosos. Quando se diz que o Brasil é o país em que mais se matam homossexuais do mundo, cabe perguntar, em que bases? Será que se trata de um valor baseado no número de homossexuais viventes no país? Se for, como se chegou a esse número? Respondidas todas essas perguntas, resta saber como os demais países calculam o número de homicídios provocados pelas práticas sexuais do indivíduo. Aliás, é preciso saber se há estatística acerca do número de homossexuais país a país. Sem respostas claras a tantas questões, qualquer coisa que se diga é chute, o que se agrava mediante a variabilidade dos países em tamanho e população, sem contar a aceitação cultural do homossexualismo. O exemplo foi escolhido pela relevância e, principalmente, pela conotação depreciativa, provavelmente injusta, que traz ao Brasil. Mesmo assim, continuam-se divulgando rankings dos mais absurdos, como exemplificado no primeiro capítulo. Aqui, serão questionados os dois mais usados pelos que, como este autor, defendem o Estado de bem-estar social. São eles: Gini e IDH.
Os dois índices dependem do PIB que, como se discutiu nos segundo e terceiro capítulos, pode ser medido de inúmeras formas e, quando transformado em dólares, podem ser usadas a taxa nominal de câmbio, ou uma taxa ajustada que se espera refletir a paridade do poder de compra.
Conrado Gini criou um meio para estimar o grau de distribuição de um fenômeno sobre um dado universo de estudo. Ele varia entre zero, tudo distribuído pela população, e 1, tudo concentrado em um só indivíduo. Se fosse usada uma pirâmide, 1 seria uma coluna e 0 seria um plano, ou seja, quanto menor for o índice de Gini, mais distribuído é o fenômeno, ou mais achatada é a pirâmide. Os economistas usam essa ideia para medir a distribuição de renda. Se Gini for 1, uma só pessoa detém toda a renda do país; se for 0, toda a renda é distribuída igualitariamente entre os habitantes.
O IBGE, via censo, considera a renda das famílias, inclusive, transferência, como o auxílio Brasil e o PIB, que serve como base de cálculo, é em reais. Parece bem coerente, mas será que a estimativa de Gini é igualmente coerente em todos os países do mundo? Mesmo a aparente consistência do nosso método encontra obstáculos na variação da paridade do poder de compra ao longo de seu território. R$ 600,00 atribuídos ao Auxílio Brasil, por exemplo, valem muito mais no Nordeste do que no Sudeste. Como isso é captado? Os Emirados Árabes, por exemplo, apresentam um dado auspicioso, de 0,26, denotando uma distribuição muito melhor que a americana, que é de 0,418, ou que a brasileira que, em 2020, era 0,489, só que a economia deles á dividida entre Private Sector, que se refere aos bens do Emir, e Public Sector, que se refere à renda do cidadão comum. Como se consideram as transferências do primeiro para o segundo grupo, o índice fica extremamente favorável, mesmo que o mundo saiba da fortuna dos xeiques, tornando o índice totalmente irreal.
O IDH, Índice de Desenvolvimento Humano, que considera a expectativa de vida ao nascer, educação e renda em paridade do poder de compra. Esse índice não leva a desigualdade em consideração, o que se tem feito desde 2010, combinando o IDH com o índice de Gini. De uma forma simplista é a multiplicação do IDH por (1 – Gini), ou seja, quanto melhor for a distribuição, mais próximo o IDH ajustado será do IDH absoluto. No ajustado, os Estados Unidos aparecem na 28ª posição e o Brasil na 85ª, contra 17ª e 84ª, respectivamente.
Os rankings têm mais um problema, o conceito de país. No de IDH ajustado, os Estados Unidos, com mais de 330 milhões de habitantes, vem depois do Chipre, com seus 15 mil. A Bélgica tem menos gente do que a cidade de São Paulo, o que torna a comparação até risível. Se compararmos o bairro de Higienópolis com Luxemburgo, teremos um resultado favorável ao Brasil.
Rankings são importantes, desde que comparando-se grandezas semelhantes, quando não paritárias. Se forem levados em conta somente países com mais de 1 milhão de km² e cem milhões de habitantes, o universo de comparação será mais coerente. Mesmo assim, tudo leva a crer que Brasil, Rússia e Estados Unidos sejam realmente comparáveis, seja pelo número de habitantes, seja pela extensão territorial. China e Índia estão noutro patamar populacional e a Indonésia, apesar de populosa, não possui território equivalente.
Resumindo, rankings ajudam muito pouco amoldar um benchmark para determinação de políticas econômicas. O que importa é manter o foco na melhoria contínua da qualidade de vida da população. É para dentro que se deve olhar, sem perder de vista o que outros povos já conquistaram, contudo, sem adotar uma visão de competição porque ela simplesmente não existe.
Fonte: GGN
Autor: Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.
