PIBOLATRIA
O PIBB que se
exploda
Crescimento econômico de qualidade
requer âncora civilizatória
O “crescimento econômico” (PIB) no período de 2018 a 2022
despertou entusiasmo em pibólatras do governo e do mercado. Por autointeresse
ou cegueira voluntária, continuam sem ter muito a dizer sobre o Produto Interno
da Brutalidade Brasileira (PIBB). Este avança sob o ímpeto vingativo do
bolsonarismo.
O PIBB registra a cota de incivilidade da nossa vida real:
recordes mundiais em homicídios, crimes de ódio, encarceramento, violência
estatal e social. Ilustra o Brasil que castiga, mata e deixa morrer; que
intimida, lincha e esculacha; que vigia, delata e persegue; que reprime a
liberdade e a diferença. É um índice que ainda não aprendemos a expressar na
linguagem econômica, dada a intangibilidade e incomensurabilidade de suas
variáveis.
Essa difícil contabilidade busca estimar nosso déficit em
direitos, tolerância cívica e institucionalidade democrática. A nossa dívida
constitucional, enfim. A expansão do PIBB se constata numa sucessão de fatos
recentes. Não são casos anedóticos isolados, nem mera continuidade de padrões
históricos. Essa onda é distinta e pertence à “nova era”.
As vítimas do PIBB são sujeitos que habitam as periferias da
sociedade (negros, mulheres, homossexuais, pessoas com deficiência, indígenas),
da geografia (subúrbios, favelas, prisões, zonas rurais, florestas) e da
política brasileiras (professores, cientistas, artistas, militantes).
Dos meninos de
Paraisópolis e do Complexo do
Alemão aos índios da
Amazônia; do disque-denúncia de professores à demissão de cientistas por
pesquisas inconvenientes; da autorização para a polícia atirar em protestos à
tortura das prisões; da exclusão de pessoas com deficiência da escola regular e
do mercado de trabalho, o bolsonarismo faz recrudescer, com método renovado, o vasto
repertório do PIBB.
A pibolatria permanece indiferente e sem crises de consciência.
Na melhor das hipóteses, entende que o crescimento do PIB mitigará o PIBB por
força da natureza. Na pior, sugere o AI-5. A indignação moral e argumentos
abstratos sobre justiça não serão suficientes para reagir a esse modo de
entender os problemas do país.
Há forma mais objetiva e pragmática de apontar o erro. O PIB é
indicador inapropriado de performance econômica, de progresso e de bem-estar.
Assim já concluíram não só Nobéis de economia, mas o Banco Mundial, o Fórum
Econômico Mundial, o FMI, a revista The Economist etc. Sob a perspectiva do
PIB, não foi possível explicar a crise de 2008. Muito menos a emergência do
populismo autoritário ao redor do mundo.
A pibolatria esconde que o PIB é só um meio, não um fim, e que
esse meio não consegue captar bem-estar e qualidade de vida. O truque da
pibolatria é converter esse meio que não mede a coisa certa num fim em si
mesmo. Crescimento econômico de qualidade requer âncora civilizatória. Precisa
saber como cresce e quem ganha com isso.
Desempenho econômico e desempenho constitucional
devem caminhar juntos. Do ponto de vista do interesse público e de longo prazo,
revigoram-se mutuamente. O atalho da degradação institucional revela a força de
interesses privados de curto prazo. Pesquisas econômicas vêm apontando para
essa correlação entre respeito a direitos e crescimento, apesar dos casos que
fogem ao padrão, como o chinês.
Não é preciso ser gênio econômico para fazer o PIB
crescer junto com o PIBB. Essa é uma tarefa elementar, de cartilha. Elementar e
produtora de imenso sofrimento e mal-estar que depois cobrarão sua fatura. No
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), para tomar um exemplo alternativo ao
PIB, o Brasil está caindo.
Bolsonaro é um inovador. Em vez de jogar o PIBB
para debaixo do tapete e disfarçar a mediocridade política, como outros
fizeram, investe no contrário: a explosão do PIBB foi sua grande promessa. Ele não
só a cumpre como celebra o resultado com orgulho.
Conrado Hübner Mendes
Professor de direito constitucional da USP, é
doutor em direito e ciência política e embaixador científico da Fundação
Alexander von Humboldt.
