ECONOMIA COMPARADA E A EPIDEMIA DOS RANKINGS (I)

 


Economistas e profissionais sequer têm noção do que seu país representa na economia mundial e onde ele está

Se houver uma escola de economia que contenha a matéria de Economia Comparada em sua grade, não chegou ao meu conhecimento. Estudar as grades curriculares dos cursos de Economia já daria uma tese de doutorado porque se poderia inferir o que os economistas estudam e o que não estudam. A questão é que, sem essa matéria em mente, os estudantes agora, assim como os profissionais no futuro, sequer têm noção do que seu país representa na economia mundial e onde ele está em comparação com a vida material do mundo.

Naturalmente, esse estudo não pode deixar de ser precedido por um sólido conhecimento de filosofia que, aliás, é a matéria mais próxima da economia que existe.

É que, quando se fala em vida material, há um componente preponderante, que são os anseios da sociedade. Bruno Latour discute isso em “Jamais Fomos Modernos”, pois o conceito de modernidade pode sequer existir em dadas sociedades e, quando existe, difere radicalmente entre os pontos da rosa dos ventos que rege o pensamento humano.

O capitalismo, aliado aos avanços dos meios de comunicação em massa tendem a amalgamar os anseios dos indivíduos. Por menos que uma comunidade indígena tenha tido contato com a sociedade dominante, já terá visto aviões cruzando os céus. Não há como dizer que uma visão dessas não lhes traz modificações culturais. Na medida em que ela se aproxima da massa tecnologicamente regida, seus anseios ficam conflitantes, pois é natural que se passe a ansiar por consumir o que lhes é oferecido, o que é posto numa vitrine mundial. Passa-se a perguntar por que ele tem e eu não e o conflito atinge o paroxismo ao aceitar rankings como método de medida. Surgem os mais disparatados comparativos que, no fundo, não medem coisa alguma. São algo como o país X tem os mais competitivos cuspidores de caroços de melancia; os habitantes do país Y têm os polegares mais flexíveis. Em que comparações como essas podem apontar onde é que se pode atingir uma vida mais despreocupada e destinada ao desenvolvimento individual e coletivo simultaneamente?

Há sim quem se preocupe com o estudo de Economia Comparada, porém num viés específico, o da renda. Isso advém de que, para administrar, é preciso medir. Depois da crise de 1929, mais propriamente desde 1936, os Estados Unidos começaram a registrar dados capazes de se estimar o PIB (produto interno bruto), que, juntamente com outros indicadores, permite verificar o efeito das intervenções do Estado, bem como os movimentos naturais da economia. Depois da II Guerra, a ideia de contabilidade nacional alastrou-se por todos os países do mundo e foi quando começaram-se as comparações. Com elas, afloraram outras questões. Como é que o país X mede seu PIB? Como seu sistema tributário fornece documentos de registro? Quanto da economia local é informal? Quanto das transações têm contrapartida monetária? Quanto da medição é prejudicada pela inflação? São perguntas de difícil resposta. Seria preciso equalizar os métodos, a começar pela emissão de documentos, o que passa pela unificação dos sistemas tributários, o que está longe de ser factível sem que haja uma administração centralizada. A adoção do IVA (imposto sobre valor adicionado) adotado paulatinamente pela Europa desde os anos 1950, além de padronizar a documentação, participou intensamente pela formação da própria União Europeia de hoje.

O Velho continente ainda se defrontava com um problema grave, a diversidade de moedas e a variedade de taxas de câmbio, o que se pretendera resolver com a adoção do dólar como regente das transações internacionais. Não deu certo em lugar algum do mundo pelo simples motivo de que os preços relativos são reflexo das economias locais. Um iPhone pode ser mais barato nos Estados Unidos, enquanto uma banana será, provavelmente, mais barata no Brasil. Além disso, os habitantes de um país mais rico tendem a aceitar pagar mais pelo mesmo produto que os de um morador de um país mais pobre. Uma latinha de Coca-cola tende a ser mais barata no Brasil do que na Suíça. A própria distribuição de renda altera preços relativos, visto que altera o portfólio de produtos consumidos.

Sempre que algo se mostra excessivamente complexo, o cientista procura um meio de aglutinar variáveis, num artifício chamado de “aproximação”. Foi baseado nisso que surgiu a ideia de paridade do poder de compra, em inglês, purchase power parity, que será o tema para o próximo capítulo.

Fonte: GGN

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. Dos seus 45 anos de vida profissional, dedicou 35 aos agronegócios, o que o levou a conhecer, virtualmente, todos os recantos do Brasil e suas mazelas.


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