MEIO AMBIENTE: COP 28
5 pontos para entender o
tamanho da crise climática antes da COP28, segundo estudos recentes
Às vésperas da cúpula do clima, diversos
relatórios mostram atraso das ações em década decisiva
Jéssica Maes
À medida que se aproxima o início da COP28, a conferência do clima da ONU (Organização das Nações Unidas), as atenções se voltam para Dubai, para acompanhar as negociações neste ano. O evento começa nesta quinta-feira (30/11/23) e, até o dia 12 de dezembro, os Emirados Árabes terão a missão de entregar um acordo satisfatório mesmo com acusações de conflito de interesses pesando sobre a organização.
PLANETA
CAMINHA PARA MAIS DE 2,4°C DE AQUECIMENTO
Publicada em setembro, a avaliação está prevista no Acordo de Paris, assinado em 2015, e é o levantamento mais abrangente já feito sobre o andamento do combate à crise climática. Os resultados apontam que, apesar de avanços, a humanidade está rumo a um aumento de 2,4°C a 2,6°C na temperatura média global.
A análise será discutida em Dubai e, a partir dela, os países devem reavaliar seus atuais esforços e assumir compromissos mais ousados —que devem ser apresentados até 2025, na COP30, que deve acontecer no Brasil, em Belém.
Outro estudo cita um cenário ainda pior para o futuro. O relatório anual sobre a Lacuna de Emissões, do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), aponta que o mundo terá de 2,5°C a 2,9°C de aquecimento em relação aos índices pré-industriais se os governos não acelerarem o corte de emissões.
Quase 90% das emissões globais são provenientes de combustíveis fósseis. Apesar disso, planos governamentais de todo o mundo indicam que a produção de petróleo, gás e carvão em 2030 deve ser o dobro do que seria permitido para cumprir o Acordo de Paris.
O Brasil, apesar de ter o desmatamento como principal motor de emissões, é hoje o oitavo no mundo na produção de petróleo, 27º na produção de gás e 29º de carvão e ajuda a puxar essa tendência para cima. Segundo o documento, o plano energético brasileiro prevê que a produção de petróleo cresça 63%, e a de gás, 124% entre 2022 e 2032.
Analisando os setores da economia em um nível maior de detalhe, fica mais fácil entender porque as previsões futuras são tão pessimistas.
Um estudo conduzido pela ONG WRI (World Resources Institute), entre outras instituições, avaliou 42 indicadores de acordo com o que seria necessário para conter o aquecimento global em 1,5°C. A conclusão foi que apenas um deles está num bom caminho para atingir sua meta para 2030: a porcentagem de veículos elétricos nas vendas de carros.
Seis indicadores estão avançando na direção certa, a uma velocidade promissora, mas insuficiente. Entre eles estão o reflorestamento, a porcentagem de fontes de energia elétrica limpas e a produtividade de carne bovina e ovina.
Outros 24 indicadores estão indo na direção certa, mas muito abaixo do ritmo exigido. Dois exemplos são a redução no desmatamento, que precisaria ser quatro vezes mais rápida, e os investimentos em fontes de energia de baixo carbono em relação à produção de combustíveis fósseis, que deveria ser mais de dez vezes mais rápida.
Cinco indicadores têm dados insuficientes.
O ANO MAIS QUENTE DA HISTÓRIA
Com recordes mensais sendo batidos desde junho, é praticamente certo que 2023 vai ser o ano mais quente em 125 mil anos. O alerta foi dado por cientistas do observatório climático europeu Copernicus e da agência americana Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (Noaa, na sigla em inglês).
Além disso, em 17 de novembro, pela primeira vez, a variação da temperatura média global ficou acima de 2°C na comparação com os níveis registrados antes da Revolução Industrial (1850-1900).
Ainda que a ultrapassagem temporária dos 2°C seja simbólica e sirva de alerta, os registros não significam que o Acordo de Paris já tenha sido quebrado. Para que seja considerado que o mundo está 2°C mais quente, é preciso que índices como esse sejam registrados de modo frequente.
FALTA DE DINHEIRO PARA ADAPTAÇÃO CLIMÁTICA
Mesmo com tantos alertas e eventos climáticos extremos, o financiamento para a adaptação climática nos países em desenvolvimento caiu 15% em 2021. Os dados são de outro relatório recente do Pnuma.
Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo